Essa mulher desce a Rua das Flores com uma par de cravos na mão. Na face, traz a mágoa duma rainha deposta por motins caluniosos. Talvez a mágoa provenha duma
pontada nas cruzes. Ou talvez o marido vadie pelas tascas e ela ensaie mentalmente
o sermão para o jantar. Talvez esse homem, ao voltar da ronda da sueca, pressinta a
nova ordem com epicentro numa jarra, mas estará demasiado mortiço para se dar
ao luxo do entendimento. Limitar-se-á a deslizar até à cama como o legítimo e
mendicante inquilino do corpo da mulher. Ela sabe todas essas coisas sem saber que
sabe, por isso caminha sob as varandas de ferro cumprindo serenamente o seu exílio,
enquanto deita um olhar sem ilusão às montras das ourivesarias. De onde lhe virá a
majestade do porte magoado? Dos cravos? De modo algum. Os cravos são apenas
promessas de beleza e ordem.
Cimo de Vila
Carlos Tê. Manuela Bacelar
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